A era do desencanto

Valores varridos e jogados tal pó ao vento
Pouco interessa,
A hora do tempo
No tecido social as camadas entrelaçam
E sobrepõem
Pouco interessa qual
Hora do tempo
Ancoradas em dimensões práticas do saber e das noções
Pouco ingressa a hora do tempo
Status entre as nações
Pouco ingressa o pensamento
A imaginação é muito mais fascinante que a realidade
Tanto faz a hora do tempo
O onírico transcende em ludicidade
Tanto faz e a qualquer momento
As ideias são bem mais interessantes
Produzem movimento na realidade
Tanto faz o tempo e a saudade
Costuram a teoria toda
Na linha da bainha dobrada da tal praticidade
Produzem movimento e provocam modificação radical no tempo
Rolam, produzem e geram movimento modificando o teto do tempo
O desencanto desenrola o rolamento do real em modo de mudança no tecido da contagem do tal do tempo
Derrama imaginação às hélices do moinho de vento
Esmaga o contentamento

il próprio gusto del tempo
nel loro pensiero (*)


[(*) a próprio gosto do tempo em seu pensamento.]



Do livro Amores, Líquidos e Cenas
(Laranja Original, 2018)




Cronometrado

O elevador demora lá fora
pq a vida não dá tempo
A fila do supermercado
O ônibus lotado
A calçada cheia no vai e vem
pq a vida não dá tempo
O trânsito lento
O calor abafado tá na hora
O metrô lotado
A espera do exame no laboratório
pq a vida não dá tempo.
As preces no oratório
A lavagem dos carros simultaneamente
Outdoors nos prédios com anúncios de remédios,
Retrato falado de 1%
pq a vida não dá tempo

É tudo um desdobramento
Ande rápido, seguro
Evite atropelamento.
Não fume, respire...
Não engorde nem em pensamento
Nunca tome porre
Ou chore,
pq a vida não dá tempo.

Até o pensamento
se escoa pelo vento
Dependendo do senso
do tal consenso.

Observatório anônimo:
(Íris digital)
foco eletrônico
fora/dentro
(pq a vida não dá tempo).

Mastigue o que dobre:
o tempo,
que a vida não dá.



Do livro Íris Digital
(Escrituras, 2005)




Xerifes do submundo

O gatos xerifes dos ratos do submundo
Criaturas oficiais,
(Official Creatures), os da lei:
Policiais falando do nada
oficiais considerando, questionando
Seguranças uniformizados argumentando
O nada.
Comando nas ruas
dos que têm crachá,
o papo do nada
cheio de ar
da falta de assunto
do vazio.
Realidade
cenário duro
brotando meninos
perdidos no asfalto.


Do livro A Pandemia da Invisibilidade do Ser
(Algaroba, 2019)




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Paula Valéria Andrade é poeta, escritora, professora, diretora de arte e artista visual. Publicou livros de poesia, arte-educação, didáticos, antologias, contos e livros infantis. Tem prêmios literários em: Portugal, Itália, Alemanha, EUA, e no Brasil: Jabuti, UBE e APCA. Foi “Menção Honrosa Poesia” 2016, na FALARJ (*). Em 2017, foi júri do Prêmio São Paulo de Literatura. É laureada – Casa França-Brasil – pela APALA, 2018. Seus novos livros de poesia são Amores, líquidos e cenas, da Ed. Laranja Original, 2018, e A Pandemia da Invisibilidade do Ser, da Ed. Algaroba, 2019.

(*) Federação das Academias de Literatura e Artes do Rio de Janeiro
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