Entrevista com a poeta e escritora Alexandra Vieira de Almeida

1) Você parte da experiência do simbólico para falar do entre laços e entre dedos das cores principalmente o negro e o branco. Que funções cognitivas estas duas cores teriam para as relações de alteridade, hoje, e como elas funcionam no seu livro como síntese de não violência?

Eu trabalho no meu novo livro de poemas com as cores negra e branca para mostrar a potência de uma etnia oprimida a partir da alteridade e da analogia, os dois pontos que se cruzam, paradoxalmente. A cor negra mancha, tira a virgindade das páginas brancas, estas representando o novo, a novidade, aquilo que se inaugura em toda sua força de poetizar. O negro e o branco se complementam num abraço repleto de erotismo. A capa do livro representa bem isso, belamente produzida por Karina Tenório que, de forma criativa, gráfica e contemporânea, mostra uma tônica bem afro, com as cores preta, branca e amarela, que se avizinham e se chocam em suas permeabilidades e significados amplos. O fundo branco, sendo coberto pelas letras pretas, bem revela a fusão entre essas cores, produzindo o encanto que as une a partir da poeticidade encontrada no livro.
Portanto, o objetivo do livro não é enaltecer tal ou qual cor, mas mostrar as inúmeras possibilidades que elas criam no âmbito dos sentidos, explorando sua imagética ao longo da cartografia humana. Se, em alguns momentos, pareço fazer mais enfaticamente o “elogio do negro” é para expressar a opressão vivenciada por essa raça oprimida na história da humanidade. Mas, por outro lado, o branco é também fortalecido a partir de sua luminosidade, misturando as cores numa dança exótica. Os sentidos do livro se ampliam e um deles é revelar também o viés literário, como se a noite, o obscuro, fosse este reino do implícito, das entrelinhas, que a obra esconde e que cabe, à luz extasiante do leitor, esclarecer a partir do dia. Assim, noite e dia, negro e branco, claro e escuro se mostram como os dois lados do jogo de xadrez, em todas as suas potências linguísticas e imagéticas que a literatura pode proporcionar. Busco na relação entre as duas cores, uma “harmonia dos contrários”, num viés heraclitiano, mostrando as suas diferenças e semelhanças para que se crie um sonho, uma utopia que vença a violência que há na realidade reinante em nossa sociedade. Como disse Adriane Garcia, grande poeta e escritora, numa resenha feita sobre meu livro, a desigualdade social no Brasil está atrelada a esta questão racial, do preconceito e violência que estava na origem. Procuro reforçar no meu livro o desmonte dessa violência, buscando não a imagem de um navio negreiro (Castro Alves) que tem a figuração da agressão e do açoite, mas um navio em que todas as cores dançam num trajeto de liberdade, paz e igualdade, em que o branco beija a face do mouro, em que o branco e o tinto se banqueteiam numa festa de êxtase e harmonia.

2) Há uma dicotomia no comportamento das ações humanas que separam, segregam, pessoas de etnias, religiões, gêneros, por pensar de forma particular, a palavra hoje não é compreendida, temos um surto de interpretação? E seu livro promove uma aglutinação de cores, de formas, uma espécie de miscigenação que não está só na forma do filtro? Da luz, reflexiva, mas também nas relações entre trocas, olhares, ações. Como foi costurando através de sua poética estas práticas?

Sim, busco a mistura como uma visão sintética de toda a realidade, meu livro é um pequeno cosmos em que procuro transcender as divisões que um pensamento estruturalista e binário tentou construir ao longo da história do Ocidente. Tenho grande influência desde o Mestrado na UERJ em Literatura Brasileira do Desconstrutivista Derrida, que no seu livro Gramatologia, nos trouxe uma luz para as questões da alteridade. Ele trouxe a partir do jogo simbólico o apagamento das identidades e polos opositivos como entre verdade e mentira, certo e errado, entre outras. O sentido era desconstruir o fonocentrismo, o que estava corrompido pela voz, pelo discurso. Uso na minha poesia muito de sua Teoria para expressar uma realidade múltipla e expansiva que não abarque a unidade, mas a pluralidade.
A humanidade tem um surto de interpretação porque está arraigada no senso comum, sem uma reflexão maior sobre o sentido do ser, que é oceânico. Não podemos nos medir por limites, há zonas de entrecruzamento entre as diferenças, que são apenas ilusórias. A tradição oriental vê bem isso a partir das tradições espiritualistas como o Taoísmo, que mostra a partir de sua simbologia os intercâmbios entre as cores negra e branca. Ambas se misturam e se relacionam. Trazendo isso para nossa realidade brasileira, onde as diferenças são expostas de forma violenta a tentar apagar o próprio de cada um, seja ele negro, mulher, umbandista, gay ou algo diferente disto, tento a partir de minha obra criar um mix cultural, uma “miscigenação simbólica” pela palavra em sua máxima subjetividade a partir da expressão artística.


'A negra cor das palavras' (Penalux, 2020)

3) Ler e intepretar é estabelecer relações, que são e nem devem ser classificatórias, Mas talvez na intuição da emoção, é o que pesou mais para um leitor filigranático. Para você como a crítica se dá hoje no mercado literário? E como você estabelece pontes de contato com um texto alheio?

Percebo muito que houve um boom de uma crítica impressionista, não dimensionada pela reflexão acadêmica, mas por impressões pessoais dos leitores de literatura. Não vejo isso como algo negativo, mas como uma parcela da visão de cada receptor sobre uma determinada obra. Há muitos blogs e sites que fazem críticas deste tipo, mas nem todos são bons. Há ressalvas. Procuro unir na minha crítica como resenhista e ensaísta os dois olhares: o acadêmico e o poético. Tento trazer para cada leitura que faço a linguagem, a particularidade e a essência de cada livro, percebendo seus matizes sutis e talvez imperceptíveis ao grande público.
Apesar de que em algumas leituras eu tenho uma visão já percebida por outros olhares, mas que utilizo através de uma dicção própria, com outras palavras, mesmo não tendo lido outras visões, busco a interface intelecto/lirismo, pois uso imagens por vezes poéticas em meus textos críticos para falar das obras literárias. Esse intuito é estratégico, pois quero me aproximar da literatura pela própria força poética que é inerente a ela.
A crítica ajuda a firmar o autor no meio literário, dando a ele outro peso e status. Se sou bem lida e elogiada por um crítico de grande potência, minha obra ganha destaque e interesse, ajudando na divulgação do autor. Faço resenhas há alguns anos para vários autores. Trabalho exclusivamente para a Editora Penalux que me projetou no mercado crítico, divulgando-me em muitos jornais, revistas, sites e blogs de relevo. Ganhei a notoriedade crítica a partir dessa primorosa editora parceira, que tem contribuído para meu crescimento como pesquisadora. A partir deles, muitos escritores me procuraram, pedindo minha opinião, pois eles acreditam que meus comentários importam e são relevantes. Isso me animou mais a escrever textos críticos e me aperfeiçoei na técnica de resenhista. Também fui muito comentada e resenhada. Tenho uma extensa fortuna crítica em andamento, em que está contida uma parcela dela nos meus dois mais recentes livros de poemas, A serenidade do zero A negra cor das palavras. Quer dizer, eu também só não laço, mas sou laçada, a caça e o caçador, a troca necessária entre mim e os outros.

4) Tua escrita é muito sensória. Ela parece adentrar as camadas do corpo da língua para tentar abarcar algum tipo de compreensão do real. A poesia é uma camada polissêmica para entrar em universos. Como se deu, no seu caso, para entrar neste universo em particular?

Sempre fui muito sensória, “sinestésica”, como Teresa Drummond escreveu. Tenho grande influência de meu estudo comparado das religiões que se deu no início de minha fase adulta. Desde os dez anos, escrevo poesia. Na minha fase adulta, inicialmente, minha poesia era mais onírica e hermética, lidando mais com o inconsciente. O grande marco do salto da diferença se deu com o meu quinto livro, A serenidade do zero. Se segundo o professor universitário, ensaísta e poeta Igor Fagundes eu tinha na minha poesia mais o voo do que o pouso, a partir desse livro mencionado, eu equilibro o voo e o pouso, pois consigo harmonizar o caos e a ordem, o dionisíaco e o apolíneo, o inconsciente e o consciente.
Neste sentido, a minha poesia atual revelou um processo de autoconscientização maior de meu ser pela palavra. Com ela, consegui conciliar mais a razão e a emoção, o cerebralismo e o lirismo, como disse Marcos Pasche com relação à poesia de Igor Fagundes. Pasche mesmo me disse que com A serenidade do zero, eu ganho mais maturidade. Que bom, se vê que estou no bom caminho e estou me lapidando. Olga Savary, a grande mestra da poesia, me disse que estou mais telúrica.
Por isso, o sensório não me abandona nunca. Apesar de ser menos hermética, a sensibilidade aflorou mais e minha poesia demonstrou contornos que misturam o que está escrito ao campo do real. A partir dos múltiplos sentidos que proliferam das minhas imagens poéticas tento atingir as camadas múltiplas do real, que é antitético em sua essência. A polissemia da linguagem literária se infiltra no real para ultrapassar as barreiras fronteiriças e dicotômicas que buscam dividir tudo, segregar o todo, que é uno e múltiplo ao mesmo tempo.
Neste novo livro, A negra cor das palavras, busco também o social a partir da negritude, mas, de acordo com o professor emérito da UFRJ e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Carlos Secchin, não sou panfletária. A arte é maior que um simples panfleto sem conexões com a subjetividade expressiva. O social é filtrado pelo poético num momento de pura inventividade. Nuno Rau, poeta, arquiteto e historiador da arte, disse que meu novo livro aborda a cor negra em suas simbologias cromáticas como a melancolia, que consta num dos meus versos a partir da bile negra. Minha poesia expressa uma grande dor, um sofrimento que Lisa Alves, a partir de seu belíssimo projeto Molotov Produções, soube bem expressar através de um book trailer que ela produziu do livro, que nas suas palavras fez minha poesia chorar no lindo vídeo.

5) As cores algumas vezes se associam a sentimentos. No mundo policromático, temos a ideia do arco-íris, símbolo do movimento LGBT, mas na nossa triste vida cotidiana, só temos disparidades de cores, antagonismos de cores. As cores não dialogam de forma harmoniosa com os tristes humanos?

Os humanos procuram tingir as cores com a cor vermelha do sangue pela violência e agressividade que não entende as diferenças e simbioses das tintas diversas. É muito desalentadora esta realidade, que só mostra o quanto nossa sociedade é tão ignorante. A sabedoria está em perceber as sutilezas das cores e o que elas nos trazem de encantamento e sedução. O jogo tem de ser feito para que o lúdico leve as pessoas à reflexão pela palavra poética. A poiesis não tem de ser uma camisa de força, mas o espaço para a liberdade e para o apagamento das desigualdades sociais. Mas isso tem de se dar pelo viés estético e não apenas panfletário. Não temos de criar outra diferença e outra barreira, mas buscar o encontro, o diálogo, para que as cores se abracem num gesto de puro êxtase linguístico.

6) Resenhar hoje seria o quê? Tanto nas negras cores das palavras quanto na vida?

Resenhar seria buscar ver as semelhanças e diferenças encontradas em cada livro com relação aos outros livros. É uma cadeia de diálogo e intertextualidade em que as negras cores são as tintas da escrita polimorfa e cambiante que não se prende a padrões. O encanto dos pássaros está na sua força de entoar belos cantos. Que a resenha seja um pássaro negro que assole a violência para fora da estrutura poética. Ela tem que fazer pontes, driblar a indiferença que nós vemos em tantos textos que ao invés de dialogarem, procuram destruir o outro.
Minha vida é permeada pela doação. Através de minhas resenhas, lapido meu ser, pois estou dando uma pequena parte de mim para o outro, descobrindo-me a partir do outro. Nossas vidas se intercalam e a mágica está feita. Resenhar para mim não é mero trabalho, mas grande prazer, que admiro como uma energia que circula por todo meu ser querendo gritar: “Estou aqui e você também está ali”. Resenhar é uma arte de extrema comunhão. É um êxtase indescritível, como respirar o ar mais puro da natureza. Conecta-me com camadas conhecidas e desconhecidas de meu ser e da outridade, o Narciso e o Anti-Narciso, o espelho e seu reverso. Resenhar é revelar e revelar-se.

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Alexandra Vieira de Almeida é poeta, contista, cronista, resenhista e ensaísta. Tem Doutorado em Literatura Comparada (UERJ). Atualmente é professora da Secretaria de Estado de Educação (RJ) e tutora de ensino superior a distância (UFF). Tem cinco livros de poesia, sendo o mais recente “A serenidade do zero” (Penalux, 2017). Tem poemas traduzidos para vários idiomas.

Fernando Andrade, jornalista e poeta. Trabalhou durante dez anos como livreiro. Colabora no portal Ambrosia como resenhista de literatura e música. Faz parte do Coletivo de Arte, Caneta Lente e Pincel com textos de poesia e prosa. Participa do Coletivo Clube da Leitura. Tem livros editados pela Editora Oito e Meio e pela Patuá.

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