O ANTICÉU DE TODOS NÓS
Em seu livro de estreia autora convida o leitor a um mergulho autorrevelador

Imersa nas águas calmas ou na revolta do mar, a poesia lírica de Mergulho no Anticéu, livro de estreia de Camila Rodrigues, propõe um mergulho ao seu íntimo autoral e, em certa medida, ao âmago de quem vai embarcar em sua leitura.
“Quanto mais profundo, mais escuro, mais revelador”, arrisca a autora, em entrevista à editora. Ainda sobre a natureza de sua obra, Camila diz: “O livro também mostra como sobreviver em um mundo que te afoga e te tira o fôlego a cada segundo”.
Tudo isso construído a partir de temáticas que, segundo a própria autora, provocam uma pressão social muito grande, como o machismo, insegurança, perdas, saída do local de origem, entre outros elementos que reforçam a identidade e as raízes de Camila Rodrigues, escritora nascida em Belém do Pará.
De acordo com ela, o livro é “dedicado a todos que perderam o fôlego e encontraram resistência em seus mergulhos profundos”. Os poemas trazem à tona pensamentos submersos, “um habitar que é sempre íntimo, que é sempre um reconstruir em busca de resistir a situações do cotidiano que nos fazem perder o fôlego”.
Para Camila, o cenário literário atual vive um momento em que a poesia, e principalmente a poesia feita por mulheres, tanto na internet quanto fora dela, tem ganhado crescente visibilidade. Grupos de escritas, clubes de leitura, páginas nas redes sociais, rodas de discussão sobre literatura e poesia têm unido mulheres e aproximando muitos artistas. “Meu livro vem pra engrossar o coro que grita: a poesia está na mesa, nos sirvamos dela!”, declara a autora, que defende que a poesia não precisa ser vista como algo distante, erudita, arrogante. “A poesia já é popular, no sentido mais lindo da palavra popular”. De fato, Mergulho no Anticéu é a prova disso. Uma obra que também abre espaço para representatividade da literatura do norte do país e dá voz ao regionalismo, quando expõe linguagens, costumes e paisagens muito particulares do local de origem da autora.
Nas três partes que compõem a obra – Perdi o Fôlego, Imersa, Já era mar – Camila vai a fundo em busca de encontrar um fôlego de ferro, do qual extrai mais resistência e coragem.
Os poemas, em muitos pontos, revisitam memórias de suas vivências em Belém do Pará, cercada de imagens poéticas que exibem suas narrativas de mulher nortista.
A escritora Dani Costa Russo define Mergulho no Anticéu como “um pulo no rio ou no mar; um pulo de um prédio apinhado de vidas alheias”. E explica: “Ler Camila neste livro é aceitar cair com força e aguentar o mergulho fundo – ou o chão que parte tudo. [...] Como uma jovem escritora vinda da beira de águas calmas tem suportado a metrópole consumidora, feita de grito e cansaço? Camila resiste. Camila escreve”.
Já o editor Jiro Takahashi, que assina a orelha do livro, conta um pouco como travou conhecimento com a autora: “Conheci a Camila na Casa das Rosas, na Av. Paulista. Foi quando descobri que era ela a criadora do belo projeto ‘Deixo Poesia por onde flor’. Eu acompanhava suas poesias por onde ela floreava pelas ruas de São Paulo. Ela trazia de presente duas coisas muito ausentes na cidade. As poesias e as flores ficavam no ar, mas presas a alguma coisa. As mensagens que elas traziam mergulhavam no coração e na alma de quem as sentia”.
Sobre o livro, o editor diz: “O instigante e intrigante título anuncia uma postura poética em que ‘a superfície era o único lugar onde eu não queria estar’. O seu mergulho corta, rasga e rompe a superfície da mediocridade e hipocrisia. Sua poesia harmoniza dureza e delicadeza. Ora impacta a cabeça, ora impacta o coração. Ou ambos. Enfim, ela é um sopro de renovação por onde a sua poesia flor”, finaliza.

Abaixo, um dos poemas do livro: SUBMERSA.

Perdi o fôlego
imersa
já era mar
a alma inundada
transbordava em dores
que flutuavam sobre a água como corpos mortos a boiar sem rumo
e cada vez mais submersa
eu mergulhava em mim
com uma única certeza:
a superfície era o único lugar onde eu não queria estar

A obra será lançada no dia 9 de novembro de 2019, às 17h, na Tectonica, Rua Ministro Ferreira Alves, 686, São Paulo/SP. 

Serviço:
Mergulho no anticéu, Camila Rodrigues – poesia (118 p.), R$ 37 (Penalux, 2019).
Link para compra: www.editorapenalux.com.br/loja/mergulho-no-anticeu

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Camila Rodrigues nasceu em Belém do Pará e criou-se próxima dali, na periferia de uma pequena cidade: Ananindeua. Graduou-se em Comunicação Social pela Universidade da Amazônia (Unama) e, atualmente, além de escritora, trabalha como redatora publicitária em São Paulo, onde radicou-se na Vila Mariana. É a criadora do projeto “Deixo Poesia”, que espalha poemas e flores pelas ruas da capital paulista. O projeto consiste em criar intervenções artísticas nos espaços urbanos com pequenos poemas e criar diálogos entre a rua e as pessoas. Essa ação foi divulgada pela Hysteria, núcleo de produção de conteúdo feito por mulheres. Participa do Clube da Escrita Para Mulheres desde 2017, e é integrante do Curso Livre de Preparação do Escritor (CLIPE) de 2019, organizado pela Casa das Rosas. Mergulho no Anticéu é sua obra de estreia.

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