Temporais

Há os que estão sentados na esperança,
aguardando o fim de semana,
o mês seguinte,
o ano em que os astros se alinharão.
O alívio dos dias úteis.

Na casa de máquinas ao lado,
há os que mastigam as migalhas
endurecidas de Cronos,
suspirando pela ferrugem dos ponteiros.

Há, por fim,
os que intuem o instante.
Os que dançam
sobre a mortalha da eternidade.
Há os que vivem.

“Le Regard Gourmand”, de Wojtek Siudmak
Receita

Pra fazer poesia,
é preciso mastigar a palavra
e sorrir com as sílabas
entre os dentes ensanguentados.

É preciso
lambuzar a palavra de silêncios
e saltar com ela a tiracolo
do precipício mais alto do interior de si.

Pra fazer poesia,
é preciso prostituir a palavra
a ponto de canonizá-la.
Segurar a palavra pelo rabo e,
assim que ela gritar grosso,
soltá-la no vácuo da lógica.

É preciso furar as palavras
até que se derramem os sentidos.
Todos, um a um: esturricados.

E, na poesia, só ficam as palavras
teimosas. As palavras com recheio.
As palavras com o gosto vermelho da vida.
“Faith is Torment”, de Eugenia Loli
Sou crente


Creio na incompletude,
no vão entre as verdades,
na fragilidade dos juramentos.

Creio que
lembrança e imaginação
trocam fluídos corporais.

Creio no sistema
solar que existe em cada carícia.
Em corpos nus
suados
em transfusão de potências.

Creio que os milagres
moram
na umidade das virilhas.

Creio na lágrima do mendigo
e no sonho erótico da freira.
Na santidade da puta
e nas memórias de Brás Cubas.

Creio em deus como creio
no curupira que nasce
na boca de uma velha bordadeira.

Creio nas palavras sujas
como alvejantes do mundo.




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Matheus Arcaro é mestrando em Filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo, dos livros de contos Violeta velha e outras flores e Amortalha e do recém-lançado de poesia um clitóris encostado na eternidade. Também colabora com artigos para vários portais e revistas.


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