A Revista

sábado, 12 de agosto de 2017

3 poemas de Patricia laura Figueiredo



circo

no circo dos animais tristes
o mar é um cemitério
onde esqueletos de índios guerreiros
e seus cabelos
amarrados em placas de concreto
boiam

mais e mais todo dia
no burlesco na melancolia
os corvos podem agora voar

que a terra volte a ser a terra
nas sandálias de um imigrante
num  punhal num penhasco
jazz e surrealismo
de novo aos nossos pés

monk e seus 46 baseados
tudo é grito
dos gregos ao monólogo
tudo é cadência
dicção (a primeira das delicadezas)
se fazer compreender
e a mais bela entre elas
o silêncio

diabos saem das poltronas
como no tempo de don juan
moliére e corneille
abrem-se as cortinas
les filles dans le ciel
cavalos como os de forman

se um estrangeiro chega
é preciso que ele se venda
se um surdo fala
ele tem que calar
colagens dadaístas
de moisés a dalai lama

topor e suas vacas negras
morrer de melancolia
partir

porque somos loucos
porque somos sós
e eles são tão numerosos



escuta

esses passos de botas no leste da europa
(os ferros em nossos tornozelos
longe bem longe)

repara como o ódio
a ironia são covardes
falam só pra si mesmos
não escutam
não respeitam
acusam
apontam com dedo
e por trás desse pobre dedo
covardes
se escondem deles mesmos

os tiranos os psicopatas
os perversos os que gritam
os que falam falam falam
esses que odeiam crianças e mulheres
esses “homens”

ouve
o silêncio ensurdecedor dos sinos

quando não se tem mais nada
a dizer
é preciso calar não é assim?
é preciso calar
se calar
e caminhar em silêncio
raspar a pele das batatas molhadas
a carne deixar pros diabos
(os diabos agora a gente sabe
eles caem do céu)
andar andar mais e mais e de novo
rápido e em silêncio

a loucura
desses tempos de ignorância
paralisada na garganta
apertando como cinto
com gana cada criança

preparar meninas fortes
pra um mundo de homens fracos
e cantar até a última gota
a vida a dança a beleza da criança
inteira
que mesmo antes da linguagem
(e por isso?)
sabe dividir
o pão o riso a dança

andar andar e silenciar
construir a liberdade
nesses tempos em que deus mata

escuta
tá ouvindo?
os passos de botas no leste
da europa vindo rindo vindo rindo


poema do sena

vê como mesmo
sob a mais fria das águas

a partícula mais afiada
dessa lâmina impregnada

o desvio preciso
o ângulo do pescoço exato

vê como mesmo
se me desabou assim
esse pacto

se esse desejo
esse segredo
de polichinelo

por mim
aberto e lacrado

(garotos sedentos
às margens do sena)

contato contato contato

vê como do nada
o amor dá de novo as cartas

dança livre e insubmisso
nos whatsapps
nos bares

e eu
sem sede
de poder
nem de palavra

vê como o amor pulsa
pra dor e pro perdão
quando o coração se abre


 Ilustração: pinterest




Patricia Laura Figueiredo (pat lau) entre São Paulo, onde nasceu e se dedicou à poesia e ao teatro desde cedo, e Paris, onde mora desde 1990, amadureceu seus poemas numa vida dedicada a tornar o poema uma experiência essencial. Publicou o seu primeiro livro de poesias, Poemas sem nome pela editora Ibis Libris e seu segundo No Ritmo dAgulhas, em março de 2015 pela editora Patuá. Participou de várias antologias, no Brasil e na Alemanha e também em diversas revistas digitais de literatura e poesia. Seuterceiro livro de poemas foi publicado pela Editora Dasch em 2016:  Poemas Bebês.


 

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