A Revista

domingo, 24 de abril de 2016

3 poemas de Willian Delarte





DESPRODUTO

fadados a morrer de fome
poetas comem
sua própria poesia
sem mercado pra desproduto
atacado pra varejeiras
poetas ganham da madrugada
o que se perde em vários meses
mas o ódio, este sim, é parcelado
até cem vezes
todo e qualquer ócio
é pecado do capital
pecado também é nascer
sem fundo e sem garantia
não há seguro desassossego
a quem rouba o som da noite
pra sonhar a luz do dia
não há cota a desajustado
ainda não inventaram
bolsa melancolia
nem ticket vale-mundo:
nasceu pobre acima da terra
embaixo do sol
e respira, é pra se danar
vagabundo!



?

?para onde vão
os pés de amarildo
quando o olho da noite não o vê?

?cadê os lábios,
cadê o queixo de amarildo?

?o joanete, aquele bico
de papagaio, a pinta
que só ela reconheceria
na calada do dia
na boca
no fumo
no beco da madrugada?

?o que fazem
os dedos de amarildo?

?serão setas? ?buracos negros?
?desenharão sóis na areia?

?serão ossinhos
ou palitos de dentes
na fuça de um cão?

?onde deita a retina da mulher
quando encontra nos olhos dos filhos
só a ausência do marido?

?cadê deus que não a escuta?

?o que será do crânio,
o que terá no peito de amarildo?
?três balas? ?dois sonhos?

?um vão?



SANTA CECÍLIA

você vai passar de carro
e pelo ar condicionado
não chegará
um átomo de odor da rua.

mesmo que um indigente
e louco
e perebento
estique o lençol mofado
que lhe cobre o machucado

(na certeza delirante
de que presta um importante
serviço ausente),

e macule o vidro da frente
com sangue coagulado
e verdeadas secreções
de pus com água-ardente,

você não lhe dará o agrado
e sua mão ficará esticada
até o próximo sinal fechado.

ainda que você se sinta mal
e busque no fundo da alma
uma explicação catártica
para o fato social
que você jamais se responsabilizará

ou encontre uma resposta mística
cármica ou econômica
que lhe convença de que cada um
tem o que busca, paga o que deve,

uma mão estará alçada,
o lençol, embolorado,

e um velho estará morrendo
como criança que já vai nascendo
louca,
indigente,
remelenta,
no corredor da Santa Casa

sem qualquer misericórdia.


Poemas de "O Alien da Linha Azul" (Edições Incendiárias, 2016).




Willian Delarte é autor dos livros Sentimento do Fim do Mundo (poesia, 2011) e Cravos da Noite (contos, 2014), ambos pela Editora Patuá (SP) e O Alien da Linha Azul (Edições Incendiárias, 2016). Premiado no II e III Festival de Literatura da Faculdade de Letras (FFLCH) e finalista da 15ª edição do “Projeto Nascente”, todos da USP. Tem publicações em diversas revistas e antologias. Foi co-editor da revista Rebosteio Digital.

Sem comentários:

Enviar um comentário